Breves apontamentos a propósito de recentes polémicas sobre a identidade literária caboverdiana

NOTAS PRELIMINARES
José Luís Hopffer Almada À semelhança do que tem ocorrido com vários protagonistas de outras literaturas africanas de língua portuguesa, alguns poetas e outros escritores caboverdianos contemporâneos (com destaque para João Vário e Arménio Vieira) foram e vêm sendo intensamente interpelados e, até, causticados por alguns críticos mais ciosos de preocupações teluricistas bem como por outros auto-investidos guardiães de uma certa “monocultura identitária” (para usar uma expressão cunhada pelo poeta caboverdiano José Luís Tavares aquando da recepção, em 2003, do prémio Mário António da Fundação Gulbenkian pela obra Paraíso Apagado por um Trovão).

Essa tarefa de crítica literária (ousaríamos dizer, de quase “vigilância identitária”) tem sido levada a cabo com tanto mais afinco quanto os seus promotores vêm ajuizando que a “monocultura identitária”, acima referida, consubstanciaria, e da forma mais cabal, uma imaginada ou real autenticidade literária caboverdiana, devendo ser, por isso, tratada como património e causa intocáveis e devidamente preservada de malfazejos desvios, contaminações e outras conspurcações estéticas, estético-ideológicas e temáticas.

É neste contexto que os poetas e escritores caboverdianos mais avessos (ou tão-somente indiferentes, ou temporáriamente indiferentes) à “monocultura identitária”, em parte ou na totalidade da sua obra, têm sido amiúde acusados de inautenticidade e apatridia literárias, bem como de sabida ancoragem num universalismo supostamente desenraizado, os quais, por seu lado, são percepcionados como epifenómenos de uma espécie de novo evasionismo na literatura caboverdiana.

Diferentemente do antigo evasionismo claridoso e da sua alegada postura resignativa e escapista em face das prementes necessidades e carências do povo caboverdiano (também ele, aliás, tematicamente problematizado pelos fundadores do nosso modernismo literário e por eles tornado sujeito principal dos enredos literários, mesmo se então completamente à mercê da natureza madrasta e das seculares políticas de abandono colonial), o novo evasionismo teria como característica diferenciadora e distintiva a fuga pura e simples ao tratamento de temáticas tipicamente caboverdianas e o enveredamento pela revisitação jubilatória, (des)sacralizante, ou mesmo sarcástica, de mitos e ícones da cultura europeia ocidental, nela inserindo as margens mais proeminentes das suas periferias passadas e presentes, reais ou imaginadas.

Tratar-se-ia, assim, de um evasionismo de cariz predominantemente temático, isto é, de uma escrita na qual Cabo Verde e as suas gentes, nas ilhas e diásporas, primariam pela ausência.

Essa ausência temática é considerada assaz grave pois que, para além de alegadamente representar um inadmissível desvio aos cânones estéticos da “monocultura identitária”e às exigências mais essencialistas do “nacionalismo literário”, ela estaria sendo exibida e muito ostensivamente reafirmada pelos seus cultores como prova de superação de um suposto provincianismo literário corporizado pelo telurismo de cariz temático e estético-ideológico.

Acresce ainda que esse suposto provincianismo literário estaria sendo catalogado como por demais pernicioso porque especialmente propiciador de restritivos condicionamentos identitários, sendo, por isso, firme, sobranceira e, a seu modo, muito sectariamente condenado pelos opositores confessos da “monocultura identitária” e do “nacionalismo literário” e do seu também estigmatizado núcleo essencial, o telurismo literário.

Ademais, e conexa com a alegada sobranceria de teor sectário, acima mencionada, a fuga ao telurismo literário (e, deste modo, à mais visível e consumível substância da “monocultura identitária” e do “nacionalismo literário”) estaria também sendo ilegitimamente incensada pelos actuais cultores da chamada “arte pela arte” como sinal do triunfo de um conseguimento estético alegada e exclusivamente fundado no mérito estético-formal da lapidação da palavra, supostamente livre das cangas político-territoriais do nacionalismo identitário e das suas marcas eventualmente etnicizantes e, por isso, digno do universalismo literário que, do mais fundo da sua busca e da sua pretensão de reconhecimento pelos grandes centros metropolitanos do poder e do saber eruditos, de fisionomia e substância eurocêntricas, almejariam todos os poetas e escritores autênticos, mormente em se tratando de ex-colonizados.

À guisa de conclusão, deixa-se (sub)entender que, nos seus traços gerais e ainda que localizado num tempo histórico diametralmente diferente porque vincadamente marcado pela pós-colonialidade, o chamado novo evasionismo se aparentaria àqueloutro alegadamente praticado pelos literatos pré-claridosos, especialmente na sua poesia lusógrafa. Relembre-se nesta circunstância que, até muito recentemente, a mesma poesia lusógrafa pré-claridosa foi sistematicamente acossada e virulentamente acusada de défice de caboverdianidade literária bem como de excessivo e serôdio mimetismo em relação a modelos temáticos e estético-formais metropolitanos historicamente superados, ou, ainda pior, de obsessiva e quase doentia e exibicionista recorrência a temas e signos característicos da antiguidade clássica greco-latina e da cultura ocidental, em geral.

É neste contexto de acesos e profícuos debates (em meras tertúlias ou no quadro de publicações jornalistícas, literárias ou académicas) que têm sido igualmente desferidos ferozes ataques de parte a parte das trincheiras literárias, devidamente coadjuvados pelos “altos comandos” das análises, tanto as mais impressionistas como as de feição académica, aliás, em livre, desassombrado e, por vezes, quase desembaraçado exercício do direito de crítica e de opinião e da expressão das legítimas razões que as possam eventualmente fundamentar (incluindo as atinentes ao gosto e aqueloutras alicerçadas num saber mais academicamente sustentado).

Razões legítimas que, todavia, não nos podem, a nós, amantes confessos da civilização do universal, inabaláveis defensores do pluralismo estético e cultores convictos tanto do telurismo identitário como também dos vários outros rostos das modernas correntes e estirpes poéticas caboverdianas e não só, levar a ignorar que, do processo de completo enraizamento literário da caboverdianidade e da correlativa afirmação de uma identidade literária islenha plenamente autónoma, resultaram dois fenómenos de grande relevância histórico-literária:

a) por um lado, a vituperação quase unânime e por modos diversos, em especial pela rasura, por tempo demasiado, da memória nossa das ilhas e da historiografia das literaturas africanas de língua portuguesa dos chamados escritores pré-claridosos, nativistas e hesperitanos;

b) por outro lado, a ostracização da escrita de quaisquer poetas e escritores caboverdianos modernos que, supervenientes, intentassem desviar-se dos cânones claridoso, neo-claridoso e nova-largadista, entretanto tornados quase exclusivos na sua auto-percepção de únicos e legítimos rostos-estafetas da caboverdianidade literária, e se atrevessem, sobretudo se motivados em pretensas ou reais veleidades metafísicas, existencialistas ou cosmopolitas, a fugir ao teluricismo atávico dominante, nos tempos de outrora como nos tempos de agora.

É este o lado mais controverso e menos positivo de alguma recepção crítica e de outras leituras da literatura caboverdiana passada e contemporânea. Lado mais controverso e menos positivo dessa recepção, crítica e não só, em razão sobretudo da sua natureza por demais excessiva na sua exclusivista valorização do telurismo, quer o de teor identitário de feição claridosa, quer o de rebelde e combativa interpelação e “irritada postulação da fraternidade”, no dizer de Aimé Césaire, retomado por Mário Fonseca no pósfacio do seu livro Se a Luz é para Todos.

Infelizmente e a despeito do carácter diversificado da obra que vem sendo construída por muitos poetas caboverdianos contemporâneos, alguns críticos persistem, aliás, de forma nem sempre coerente, no mesmo arreigado e exclusivista apego ao telurismo e, quiçá por razões muitas vezes de origem extra-literária, continuam a saga das tentativas de marginalização e de exclusão de todas as outras correntes estéticas cultivadas por escritores caboverdianos e africanos em geral, com destaque para as de teor metafísico e de indagação existencial.

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Comentários

10 Comentrios

  1. Ivanu Pereira de Carvalho: 26 Agosto, 2010 - 18:19

    Excelente texto! O sr. José Luís possui uma consistência intelectual como poucos intelectuais caboverdiano, o homem é multifacetado, não é como o outro josé Luis que só de poesia sabe opinar e que nem sequer respeita os outros poetas que marcaram a poesia caboverdiana, ainda muito antes do tempo de Nhó Balta, Hopffer tem se revelado como poucos na arte de teorizar a literatura caboverdiana, um ensaísta proeminente e estudioso incansável das coisas das ilhas. É INTELECTUAL desta craveira que os governos de Cabo verde devem apoiar, ao invés de estar a distribuir condecorações a torto e a direito sem critérios nenhuns a CAVACOS SILVAS E COMPANHIA LIMITADA, como o Comandante Pires anda a fazer. Onde é que está o Ministério da Cultura de Cabo verde? Homens da cultura e da ciência como este que deveria estar a definir politicas para essas áreas e não gente que nem conhece sequer a história literária, ou política de Cabo-verde, que nunca se viu escrever um artigo.

  2. Carlos Canda: 28 Agosto, 2010 - 20:05

    Amigo Ivanu, se está a referir ao poeta José Luis Tavares, não sei porque ele há-de prestar vassalagem a quem quer que seja. Ele tem o seu caminho para trilhar, inimigos para criar, e mais tarde feridas para lamber e remorços para ninar. Assim se fazem os poetas e pelo meio amar muito, tudo e todos sempre, mas ser obediente nunca.

    O poeta jlt é jovem, rebelde e pensa que tem o mundo ao seu alcançe, lindo e maravilhoso. Dali sairá decerto boa poesia, até que começe a engordar e a concordar ou então se torne azedo e chato…

  3. Miriam Flores F.: 28 Agosto, 2010 - 23:12

    Porque desta opção deliberada por textos herméticos, quase inacessíveis? Assim, mais vale pregar aos peixes, porque os homens, esses, vão fugir todos aborecidos.

  4. Nízia Gomes: 29 Agosto, 2010 - 21:57

    O sr. Almada mantém este sonho: criar uma nova narrativa para o já acontecido. Reinventar um outro trajecto para a nossa literatura e depois nomear os poucos personagens desse restrito clube. Todavia esquece que ao fazer isso, todo o potencial, riqueza e diversidade literaria perde cotação.

  5. Dalila Vieira: 31 Agosto, 2010 - 13:14

    Cara Nízia Gomes,se defacto leu o texto na íntegra entenderá melhor que o ensaiasta em apreço não(pelo menos nesse texto)assinalou nenhuma tentativa de postulação nem alvitrou uma suposta geração contemporanêa “novissima largada literária” tão somente defende e costata uma diversidade de elementos estético-formais,temáticos… na poesia e na literatura caboverdiana no geral.Penso que a diversidade não constitui de per si uma perda de identidade,pois julgo que as historiografias literárias demonstra-nos que os estilos ou tematicas muitas veses expressam as epocas as influências pessoais e colectivas,daí que os literatos modernos não devem ficar aprisonados às temáticas télúricas ou ao evasionismo literário dos claridosos.Ademais o ilustre J. L. Hopffer no seu brilhante ensaio:”a funcionalização polítca ideológica da literatura caboverdiana” aduz questionamentos sobre se a literatura claridosa (que sempre foi vista como um canone literario do ponto de vista da temática e estético-formal),não se trataria de uma deriva dos nativistas que os precederam.Daí que para mim a geração do nhô Eugénio tavares,Pedro cardoso etc constituem a referencia maxima da literatura caboverdiana embora insisto na valorização de uma linha evolutiva consuante as epocas na história da literatura caboverdiana:nativismo literario;claridosos,pos claridosos,nova largada panafricanista,comtemponareos etc..

  6. Ivano pereira de Carvalho: 31 Agosto, 2010 - 13:31

    Oh senhor Carlos Candas VAMOS DEVAGAR COM O ANDOR,reconeço que o outro José Luis,o Tavares, tem feito o bom trabalho e têm ganho com merecimento muitos prémios e elevando o nome e cultura litéraria caboverdiana a mais alto nível,o que quis aduzir é que o homem têm de moderar nos descursos e nas atitudes porque só lhe ficam bem,para chegar onde ele chegou certamente bebeu em muitos poetas caboverdianaos e aprendeu muito com eles e não só,portanto a humildade só lhe ficará bem,e também sobre a sua poesia a única crítica a fazer é o de aproximar mais dos canones estéticos formais da literatura caboverdiana e não procurara tocar morna com instrumentos que não caboverdianos.

  7. leopoldina soares: 2 Setembro, 2010 - 22:24

    meus amigos este artigo é interessante e concordo em parte. Mas a minha intervenção é para convidar aos amantes da literatura a lerem expressamente o livro MARGINAIS de evel Rocha. Um romance fascinante, o romance marca uma viragem na nossa literatura.

  8. Dalila Vieira: 3 Setembro, 2010 - 15:26

    Obrigado pela dica,diz-me onde posso encontrar o romance que nos recomendou.

  9. leopoldina soares: 14 Setembro, 2010 - 12:52

    Depende onde vives mas se estás na praia de certeza que encontras na biblioteca nacional.

  10. Anselmo: 18 Novembro, 2010 - 16:20

    Saudações!

    Foi uma grata surpresa encontrar tua reflexão na internet. Aproveito para lhe pedir um favor: estou lecionando literatura aqui em Maputo, e não tenho acesso à produção literária contemporânea dos romancistas caboverdianos. Poderias me dar algumas indicações? Agradeceria imenso, pois estou a montar um projeto de investigação. Se puderes, por favor, envie as indicações para o e-mail hokaloskouros@yahoo.com.br

    Atenciosamente,

    Prof. Anselmo

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