Desigualdades sociais e violência juvenil na cidade da Praia(West Africa Peace Initiative; Narratives, events and history: reporting and documenting peace and conflict in West Africa; Painel Cape Verde and the Challenges of Social Peace; Hotel Praia Mar; Praia, 13/12/2011)

É costumeiro ouvirmos a associação pobreza/delinquência para explicar determinados comportamentos de alguns jovens praienses de hoje. Tal associação, para além de limitador e descriminalizador para com uma boa parte da nossa juventude, uma vez que, os dados do INE de 2005, nos diz que cerca de 49% dos pobres no país tem menos de 15 anos e 30% dos agregados familiares chefiados por indivíduos na faixa etária entre os 15 a 24 anos são pobres, esconde a delinquência de colarinho branco, muito frequente no país. Obviamente, pelos dados apresentados, sabemos que esta franja da população pobre não é delinquente, caso contrário, teríamos de considerar como criminoso metade da população residente nas ilhas.Ponho sim a questão nas desigualdades sociais. Convém termos em conta que a sociedade cabo-verdiana nunca como hoje teve à sua disposição tanta riqueza. Segundo João Estêvão (2004), o PIB cabo-verdiano cresceu entre 1982 e 2008 a uma taxa média anual de 5,8%. Em 2009, o valor do Rendimento Nacional Bruto era de 3.010 dólares por habitante, colocando Cabo Verde no patamar dos países de rendimento inferior, trazendo importantes reflexos a nível de qualidade de vida no arquipélago.

Não obstante os indicadores positivos de qualidade de vida das populações conseguidos nas últimas duas décadas, a desigualdade na distribuição do rendimento e nas oportunidades entre os jovens poderá condenar o país a uma situação de instabilidade interna. Aliás, a meu ver, a questão da violência urbana está intimamente ligada a esta situação.

A nível da desigualdade social, o relatório de 2004 sobre os objectivos do milénio para o desenvolvimento de Cabo Verde mostra um país desigual, principalmente quando comparado com outros países com o mesmo nível de rendimento, uma vez que o Índice de Gini[1] aumentou de 0,43 em 1989 para 0.59 em 2002.

Ao falarmos de desigualdades, pensamos, num primeiro momento, nas desigualdades que se jogam no plano internacional, opondo as nações ricas e nações pobres, ficando estes últimos reféns das agendas do grupo dominante das nações ricas. Entretanto, estas assimetrias transportam-se com graus diferentes de gravidade para o interior de cada nação, seja ela rica ou pobre.

Como nos lembra João Ferreira de Almeida (1991), ao falarmos de desigualdade estamos obrigatoriamente a falar de diferenças. Se é verdade que as diferenças revigoram o funcionamento democrático, já as desigualdades, comprometem-no. A desigualdade em Cabo Verde, para além de nível económico, manifesta-se também a nível cultural, espacial e, quanto a mim, o mais grave, a nível das oportunidades juvenis.

A partir de uma investigação etnográfica sobre a juventude cabo-verdiana na cidade do Mindelo, Filipe Martins (2010), constatou a existência de contradições entre o discurso sobre os jovens, por parte dos profissionais que trabalham com esse segmento da população e o discurso dos próprios jovens, no que toca às oportunidades (de educação e formação, de emprego ou de criação de um negócio, de obtenção de uma habitação própria, de criação de uma família, de expressão e de desenvolvimento individual e colectivo) para os jovens na sociedade cabo-verdiana contemporânea.

Convém lembrar as palavras do então Ministro da Juventude e Desportos, Sidónio Monteiro, em declarações à RTC por ocasião do Dia Mundial da Juventude no dia 12 de Agosto de 2009, quando afirmou e passo a citar: “nunca houve tantas oportunidades para os jovens em Cabo Verde, o problema é que os jovens não as querem aproveitar porque estão interessados em fazer outras coisas”. Pena tenha esquecido de acrescentar os mecanismos de acesso a estas tantas oportunidades. Com esta afirmação inconscientemente quero acreditar, remeteu a juventude à condição de uma camada populacional preguiçosa, criminosa e mentirosa. Aliás, em Cabo Verde, é usual ouvir-se dos dirigentes políticos e técnicos que trabalham com os jovens, uma tendência de teorização da juventude a partir de uma abordagem naturalista, isto é, como uma fase de vida transitória entre a selvajaria e a civilização. Por isso, procurou-se desde muito cedo controlar os jovens (e socializar as crianças) a partir de uma programação institucionalizada.

Se é verdade que nos últimos anos, fruto das políticas sectoriais desde a independência e a democratização do ensino nos anos de 1990, houve um acréscimo de oportunidades de realização dos jovens em vários níveis, também é verdade que a pressão demográfica destes, o frágil sistema económico, educativo e de protecção social do país ainda não são capazes de responder às aspirações juvenis de obtenção de um emprego estável, de uma habitação própria e de estabelecimento de uma família. Esta situação faz com que a maioria dos jovens cabo-verdianos se encontre numa situação sentimental que varia entre aspirações e frustrações. A aspiração em ter uma mobilidade ascendente através do capital cultural adquirido via sistema educativo e a frustração devido à dificuldade de acesso a um mercado de trabalho cada vez mais segmentado, controlado, muitas vezes, por uma rede de compadrio e de militância política.

Portanto, falar de jovens com dificuldades de acesso ao mercado das oportunidades, leva-me ao conceito da vulnerabilidade juvenil. O conceito vulnerabilidade tem sido usado por distintas agências e pretende-se com a sua mobilização tentar compreender, de forma integral, diversidade de situações e diversidade de sentidos para diferentes grupos, indivíduos, tipos de famílias e comunidades. Alguns autores tem-se recorrido ao conceito vulnerabilidade social, tentando desconstruir sentidos únicos e identificar potencialidades de acção dos actores em resistir e enfrentar situações socialmente negativas.

Considero então, a existência de uma vulnerabilidade positiva, quando se apreende, pelo vivido, a engendrar formas de resistências, formas de lidar com os riscos e obstáculos de modo criativo. Encontramos nos escritos de Pierre Bourdieu (sobre capital cultural, social e simbólico) um suporte a esta abordagem. A reacção das populações vulneráveis, jovens incluídos, a partir das relações de comunicação, após a tomada de consciência das violências simbólicas e estruturais, historicamente legitimadas, por conseguinte, vivenciadas, trazem a semente positiva de um poder simbólico de subversão.

Por exemplo, da violência simbólica existente na cidade da Praia na época colonial e nos primeiros anos da era pós-colonial, assistimos, ainda hoje, um discurso assente em características gentílicas estereotipadas quando se fala dos suburbanos e dos subúrbios. Expressões como gentinhas ou gentios de Guiné são usuais no universo comunicativo dos residentes mais antigos do espaço social central – Plateau – e hoje ganham novas roupagens. O subúrbio – “baxu Praia” – no imaginário dos “riba Praia”, era aquele espaço onde se concentrava o badio – gente selvagem, sem modos, não ocidentalizados – que punha em causa as normas e os bons costumes dos praienses. De acordo com Gabriel Fernandes, alguns intelectuais cabo-verdianos agarrados ao colonialismo tentaram afastar Cabo Verde do continente negro, esforçando uma aproximação à Europa, tendo resultado dessa dinâmica não apenas o encobrimento das supostas heranças africanas da cultura cabo-verdiana mas também a busca de sólidas bases culturais que legitimassem a pretensão de fazer coincidir culturalmente colonizador e colonizado. Desse exercício, segundo este autor, sai a diferenciação horizontal entre indivíduos e grupos homogeneizados pela sua condição sócio-política – assimilados versus badios. Esta lógica impõe-se quando analisamos as estratégias distintivas de um passado recente dos de “riba Praia” em relação aos de “baxu Praia”, em que os primeiros tentavam impor, através de lutas simbólicas de classificações, a sua visão do mundo social baseada em princípios de di-visão.

Poder-se-á afirmar que ao lado da diferenciação horizontal de que fala Fernandes, mobilizando o discurso para o campo das relações sócio-espaciais da actual cidade da Praia, reproduziu-se também uma diferenciação vertical sócio-espacial, que com o passar do tempo, começa a ser rejeitada pelos jovens residentes nos bairros periféricos socialmente mais afastados, que numa atitude de revolução simbólica contra a dominação simbólica, através da inversão dos valores que os constitui como estigmas, tentam impor novos princípios de di-visão, definindo o mundo social de acordo com os seus princípios. Na prática, dá-se uma reapropriação colectiva da identidade, antes estigmatizada, por meio da sua sobrevalorização que se inicia pela reivindicação pública do estigma, construído assim como emblema – segundo o paradigma de que os jovens do gueto são mais sociáveis e solidários que os “kopu leti” – e que termina na institucionalização positiva desse estigma.

Pegando na questão da violência urbana, a partir dos finais dos anos de 1990 e início dos anos de 2000, os praienses depararam-se com níveis de violências consideradas excessivas, violência essa mais tarde imitada noutras regiões. No imaginário dos praienses, duas figuras sociais emergentes foram os responsáveis pela onda da violência: os deportados e os thugs. Os primeiros, pelo envolvimento com o narcotráfico na forma de matadores profissionais e os segundos, influenciados em parte pelos primeiros, adoptando o seu estilo de vida a partir das histórias de street life e street soldjas dos jovens negros nos guetos norte-americanos. 

Antes disso, salvo episódios da delinquência juvenil perpetuado pelos “piratinhas”, “netinhos de vovó” e “ninjas do mar”, não há memória colectiva dos anos anteriores no que toca a elevados índices de violência urbana na Praia, não obstante a violência cultural historicamente legitimada.

A actual violência urbana que se vive no país tem sido tratada como uma patologia social em que forçoso será a identificação da estirpe com vista à sua erradicação. Cabe aos agentes políticos dominantes suportados pela comunicação social o papel instrumental de divulgar a ideológica visão de que a delinquência juvenil colectiva urbana é a violência em si e não uma das suas manifestações, escondendo assim a verdadeira raiz do problema – a violência estrutural.

Os objectivos são claros: por um lado há a transferência da culpabilização do Estado para as famílias e, por outro, há a mimetização da delinquência juvenil e da violência, restringindo o seu combate e prevenção a uma mera questão de segurança pública e repressão policial. Obviamente, esta posição pública governamental representa uma visão reducionista e preconceituosa, associando a delinquência a bairros patológicos e a indivíduos desprovidos de capital.

Falar da violência juvenil na cidade da Praia remete-nos para aquilo que usualmente designamos thugs. Entendo teoricamente thugs, como grupos formados por jovens urbanos transculturais desafiliados, ligados por laços de sociabilidades e solidariedades frouxas mas intensas, marcados pela continuidade do tempo privilegiando o aqui-agora e propensos a fazer uso da violência como forma de afirmação pessoal, social e identitária.

A esta construção teórica associo o conceito tribos urbanas para dar conta de uma série de fenómenos complexos associados a jovens em Cabo Verde no geral e na Praia em particular. As tribos urbanas não são uma realidade, mas sim um caminho para reflectir de forma crítica acerca da metamorfose da condição juvenil (culturas juvenis) na era digital. São formas de metaforização de identidades dissidentes, de dramatização do conflito social e de entender as culturas fragmentárias, híbridas e transculturais presentes na camada juvenil contemporânea cabo-verdiana.

Ao considerá-los como tribos urbanas, estou metaforicamente a falar do atrito social ou a resistência social de um grupo juvenil específico – os thugs – em relação à cultura dominante marcada por uma forte normatividade social. Jovens que formam agrupamentos nos bairros de residência, nos fóruns alternativos da rua, incorporando estilos de vida dos jovens negros dos guetos norte-americanos, optando por determinadas condutas vistas pela maioria dominante como desalinhadas, confrontativas e exóticas. Falamos, evidentemente, de um fenómeno glocalizado.

É no espaço da rua que, segundo Philippe Bourgois (2001), a afirmação da dignidade autónoma acontece a partir do desenvolvimento de uma cultura de resistência caracterizada por diversas práticas de revolta que, com o passar dos tempos, se consolida num estilo de vida marcado pela oposição e pela delinquência. A manifestação do atrito com o todo social pode, por vezes, constituir-se em movimentos radicais de questionamento da realidade, promovendo uma cultura de violência e de drogas, em ambos os casos protagonizadas como cultura de invasão (a que se associa o imaginário de “classes perigosas”), mas também de evasão (fugitive culture) (Pais, 2004).    

Normalmente, a violência perpetuada por estes jovens são vistos como algo sem sentido, devido sobretudo à relativa estabilização em torno dos valores com os quais as sociedades se julgam a si mesmas. No caso dos thugs, é interessante descobrir que os sentidos também podem existir onde parece reunir a sua ausência. Muitos jovens valorizam o que observam ou o que se passa ao seu redor, acabando por integrar à nova moda não porque simplesmente existem, mas para que possam existir, isto é, para se fazerem crer que pertencem a um sentimento identitário (Pais, 2004).

Muitos grupos thugs delinquentes na cidade da Praia, tal como nos Estados Unidos de América, a referência, surgiram como uma das principais formas de associação, trabalho e identidade para centenas de jovens, desempenhando em alguns casos um papel de equilíbrio estrutural em diversas áreas, o que explica os sentimentos ambíguos dos moradores locais em relação a eles. Tenho reparado em alguns bairros da cidade da Praia que se por um lado os moradores sentem-se amedrontados, por outro, são capazes de se relacionarem com esses jovens de forma mais bem-sucedida do que com algumas instituições oficiais.

Reparo nos thugs uma cultura de urgências, ou seja, uma cultura em que a perspectiva da própria existência é uma constante, embora não seja uma cultura de negação, mas de celebração da vida. Desta feita, tudo tem de ser experimentado, sentido, vivido, conquistado, antes que seja tarde demais, visto não existir o amanhã. A violência é assim vivida e entendida como uma contra-violência social existente em várias dimensões.

Convém lembrar que existe hoje na cidade da Praia cerca de cem grupos thugs delinquentes, metade deles armados; que só este ano, 2011, morreram vinte e oito jovens resultantes de confrontos entre grupos rivais, sem falar dos feridos, das vítimas das chamadas balas perdidas ou das mortes ocorridas em anos anteriores; e que nesta última década várias foram as mortes resultante dos ajustes de contas entre grupos de narcotraficantes. Perante este quadro, ao invés de continuarmos a iludir-nos que vivemos num estado de paz, penso que o melhor é assentarmos os pés no chão e reconhecemos que estamos perante um cenário de guerra urbana. Uma novíssima guerra como a chama Tatiana Moura (2010)

Redy Wilson Lima

Cientista Social



[1] O Índice de Gini indica o grau de desigualdade na distribuição dos rendimentos (ou do consumo) no seio duma população. Vai de 0 a 1 e tende para 1 quando as distribuições são muito desiguais e para 0 quando são menos.

 

Bibliografia:

 Bourdieu, Pierre (2001), O poder simbólico, 4º Edição, Miraflores, DIFEL

Bourgois, Philippe (2001), En quête de respect: le crack à New York. Paris, Seuil

Castells, Manuel (2003), A era da informação: economia, sociedade e cultura: o poder da identidade, Volume II, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian

Castro, Mary Garcia (2002), “Jovens em situação de pobreza, vulnerabilidades sociais e violências”, em Cadernos de pesquisa, nº 116, pp. 143-176

Estêvão, João (2011), “A economia cabo-verdiana desde a independência: uma transição lenta”, em Luca Bussotti e Severino Ngoenha (Orgs), Cabo Verde da independência a hoje – Estudos Pós-Coloniais, Udine, Aviani & Aviani Editori, pp. 69-89

Fernandes, Gabriel (2006), Em busca da Nação: notas para uma reinterpretação do Cabo Verde crioulo, Florianópolis, Editora da UFSC.

Ferreira de Almeida, João (1991), “Democracia, desigualdades e valores”, em Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 32, pp.29-34

Lima, Redy Wilson (2011), “Praia, cidade partida: apropriação e representação dos espaços”, em Luca Bussotti e Severino Ngoenha (Orgs), Cabo Verde da independência a hoje – Estudos Pós-Coloniais, Udine, Aviani & Aviani Editori, pp. 49-66

Martins, Filipe (2010), “O paradoxo das oportunidades: jovens, relações geracionais e transformações sociais – notas sobre Cabo Verde”, Working Paper CRIA 4, Lisboa

Moura, Tatiana (2010), Novíssimas guerras: espaços, identidades e espirais da violência armada, Coimbra, Edições Almedina

Ministério das Finanças e do Planeamento (2004), Objectivos do milénio para o desenvolvimento – relatório 2004 (Cabo Verde), Praia, Direcção Geral de planeamento

Pais, José Machado (2004), “Introdução”, em José Machado Pais e Leila Maria Blass (coords.), Tribos urbanas: produção artística e identidades, Lisboa, ICS, pp. 23-55

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Comentários

3 Comentrios

  1. viviane: 27 Março, 2012 - 1:20

    gosteeii*-*

  2. Makanaki: 18 Abril, 2012 - 17:29

    Tb achei uma abordagem beme struturada e realista.Parabens para o autor.

  3. Maria Angelita da Silva: 30 Abril, 2012 - 3:22

    A abordagem naturalista, é também exercida na infância… Portanto o conceito de protagonismo infantil defendido por tantos estudiosos, pode se revelar como uma possibilidade a ser considerada como um rebate a essa abordagem naturalista – uma fase de vida transitória entre a selvajaria e a civilização – .
    Que não é diferente do conceito de “infância” em alguns aspectos, pois a ideia do vir a ser, invisibiliza a criança que é hoje. Nesse sentido, poderia perfeitamente servir de denúncia a visão da desigualdade a nível das oportunidades juvenis…

    Estou aprendendo muito com você!

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