
“O Escravo” de José Evaristo de Almeida, primeiro romance da literatura cabo-verdiana, publicado em 1856, põe em destaque três mulheres, Maria, o ideal da mulher romântica, Júlia personagem tipo em representação de todas as mulheres negras que chegaram em Cabo Verde na condição de escrava e Luísa, escrava crioulo nascida nas ilhas. A Júlia representa o polo negativo no percurso da mulher das ilhas, a encarnação do infortúnio, da desgraça e da degradação humana; Maria é o símbolo do triunfo, da realização pessoal, familiar e social e Luísa ocupa uma posição intermédia visto que, apesar de escrava não conheceu nem experimentou as agruras vividas por Júlia enquanto vítima de exploração sexual por parte do seu senhor.
A mestiçagem cabo-verdiana, da qual muitos se orgulham tanto, teve a sua génese em processos repulsivos de tratamento e exploração da mulher negra que merecem ser conhecidos, para que se possa reconhecer e valorizar a tenacidade da mulher enquanto promotora da vida e protetora da espécie humana. Aquela que, sem dúvida, foi a garante da continuidade da vida nas ilhas e que hoje ocupa um lugar cimeiro na senda do desenvolvimento humano e social em Cabo Verde.
Júlia é mãe de Cláudio Pimentel, mestiço de pele branca que tenta esconder, a todo o custo, a sua origem negra. Filho de Jerónimo Pimentel, o branco desalmado que, brutalmente fez da Júlia mãe aos 13 anos de idade. Este episódio marca o início de uma vida de terror que coloca a Júlia no extremo mais negativo do sistema social que serve de pano de fundo à obra e a leva a disfarçar-se de feiticeira na busca tenaz por condições de sobrevivência.
A feiticeira Júlia quebra a neutralidade aparente dos personagens e do ambiente com a sua história de tormento. Ela é a responsável pela introdução da atmosfera de tragédia, pois os acontecimentos narrados não são apenas recordações do passado, mas sobretudo prenúncio de desgraças futuras profetizadas no seu tom amargo e na sua sede de vingança. Usa o suspense ou epístase que intensifica a expetativa e o terror que o uso dos presságios acentua até ao Clímax. Os ouvintes da sua história vivem a sua opressão e ela que se sente dominada por remorsos e terrores – é o phatos. É a sua história a responsável pela introdução da peripécia ou cena nuclear da tragédia. Pois João acaba por descobrir através dela que é seu filho e, segundo Aristóteles, consiste num reconhecimento ou identificação (anagnórisis). A partir deste capítulo as situações precipitam-se até ao desenlace fatal (catástrofe), pois morrem todos.
A Júlia é a encarnação do sofrimento atroz, do destino cruel e do coração endurecido que cultivou e alimentou ódio e vingança contra os brancos, tendo nisso o seu objetivo de vida, o que faz com que ela arraste o filho para participar da tragédia da família e esteja marcado por ela.
Porém, João, seu filho de alma bem forma pela angelical Maria, envidou todos os esforços para a libertar do ódio que corroía o seu íntimo, esgotando todos os seus argumentos nessa empreitada, como aliás nos mostra o excerto seguinte:
Depois a senhora de teu filho cultivou a inteligência do escravo; e eu fui feliz até que o amor veio tornar tempestuoso o céu da minha alma.
– E quem são esses entes que trataram o escravo de uma maneira tão oposta à regra geral?
– Quem? Um filho vosso, uma neta, cuja existência ignoráveis; finalmente um irmão meu de quem já não sou escravo por circunstâncias que depois vos contarei.
– Um outro meu filho! Teu irmão!
– Sim, Cláudio Pimentel, o vosso primeiro filho.
(…)
– Não, o filho do meu algoz não é meu filho: é tanto meu, como o peru o é da galinha que o fez nascer. Soubesse-os eu tão perto, e o sangue dessa raça maldita já teria vingado a morte de Luís. Meu filho!! …(…) – oh! ele não; tu sim, tu filho de Luís, tu és o meu único filho!
Aquele, eu o odeio e aborreço com toda a cólera da minha alma; aquele terá herdado o criminoso caráter de seu pai, há-de ser como ele perverso.
João sentiu um suor frio percorrer-lhe o corpo ao ouvir as palavras de Júlia. Aquelas ideias de sangue compadeciam-se tão pouco com os seus generosos sentimentos, que ele não pôde eximir-se a um desgosto profundo, descobrindo pensamentos de morte na mulher que lhe dera o ser.
– Minha mãe – disse ele – Cláudio é tanto vosso filho quanto eu o sou. Não o trouxestes em vossas entranhas assim como a mim me trouxestes? Como pois votais um ódio de morte àquele em cujas veias corre o vosso sangue?
– O meu sangue! Sim, a parte impura dele, tornando mais corrupto em suas veias, onde foi juntar-se ao do seu pai. O meu sangue!… Quando a lanceta rasgar a veia do enfermo para tirar-lhe o sangue corrompido, que faz padecer, devemos apreciar esse sangue como uma coisa que foi nossa, ou convém extingui-lo como objeto altamente nocivo? Não, Cláudio Pimentel não é meu filho.
…
– Minha mãe, se não quereis envenenar estes momentos, que há pouco foram de um suave refrigério para as minhas dores; se não quereis, ó minha mãe! que eu maldiga a hora em que o ser me destes, arremessai para longe de vosso peito os ferinos sentimentos que tendes manifestado; esquecei a causa de vossas mágoas; e em vez de uma vingança, que vos tornara parricida, restitui ao vosso primeiro filho toda a afeição, todo o afeto que ele vos merece; porque Cláudio não herdou os vícios do pai; Cláudio é bom e humano, e sua filha é um anjo, cujos dotes de alma marcham de perfeito acordo com as graças do seu corpo. A ideia de que me salvaram, a mim, o vosso filho querido, deve desvanecer os rancorosos pensamentos que vos possuem: os cuidados que dispensaram àquele que vos está falando, reclamam da vossa parte o reconhecimento mais que execração a que os votastes. Sou eu que vo-lo peço; eu, aquele cuja existência estará de ora avante ligada à vossa!… Minha mãe! Minha mãe! Respondei-me ao menos – respondei-me por piedade! Pois a voz de João, o filho de Luís, não comove vosso peito? Está vosso coração de tal modo endurecido pelo desgosto que haja de resvalar por ele as súplicas de um filho, sem que o penetrem as minhas lágrimas? Não vos revelam minhas palavras que o sossego de meu coração depende da vossa resposta?
E Júlia conservava-se muda; seus lábios cerrados não desprendiam o mais leve som.

Perante a constatação de que seu filho ama o seu objeto do mais profundo ódio, Júlia se vê na eminência de nunca mais se libertar dos fantasmas do seu passado, cuja lembrança estaria sempre presente na existência do João que amava por ser filho do Luís – amor da sua vida – representando o pólo positivo da sua existência e na de Maria, filha do seu filho Cláudio Pimentel – testemunho da sua desgraça, e do seu opróbrio – representando o pólo negativo da sua existência. Por isso, recorre à morte, para onde também tentará arrastar o João, na tentativa de realizar o sonho de descanso eterno ao lado daqueles que ela amava. Talvez, Júlia tenha morrido feliz, envolvida na ideia de que João não mais sofreria.
Se Júlia é uma mulher destruída pelo sofrimento e dominada pelo ódio, Maria é uma mulher edificada pelo afago e proteção familiares e guiada pelo amor ágape.
Pois Maria é o ideal de mulher romântica. A figura angelical e divinizada que pode ser comparar com menina e moça de Bernardim Ribeiro, ou a menina dos rouxinóis de Almeida Garrett. A sua índole é-nos apresentada pelo João, seu protegido.
“Ah! Exclamou João depois de um curto silêncio -, quanto é grato ouvir-vos! Como se dilata o coração de quem luta, quando a vossa harmoniosíssima voz se lhe ecoa na alma! É ouvindo-vos que se pode, na terra, conhecer a voz dos anjos, é sendo vosso servo que se chega a compreender a elevação de vosso sentir; que se podem apreciar vossas virtudes, a bondade de vosso coração, a multiplicidade de sublimes sentimentos que ornam vosso peito; é tratando convosco que se pode bem avaliar quanto é imenso o Deus que vos formou, e cujo culto vós me ensinaste; de esse Deus supremo, a quem eu dirijo incessantemente preces por vós, senhora; por vós, a quem eu devo a cultura de minhas ideias!”
As últimas palavras de João nesse excerto denunciam a influência da Maria na edificação do seu caráter e invoca o papel de toda a mulher cabo-verdiana na formação integral do povo das ilhas. Para Maria, talvez foi fácil conseguir seus intentos porque não precisou apertar o sinto e João estava ávido para aprender, o que valoriza ainda mais o percurso daquelas mulheres que não mediram esforços para fazer dos seus filhos doutos, vencendo secas, fomes, doenças, miséria e trabalhos árduos.
Na dimensão psicoafectiva Maria desempenha um papel determinante na afirmação da identidade do João. Escravo de dentro de casa, criado com a nhazinha, é beneficiário de um relacionamento quase familiar. Irmão do seu dono branco/mestiço que oculta a todo o custo a sua origem negra, é agraciado por um tratamento afetuoso e respeitoso pela sobrinha que o trata com uma humanidade rara para a época e uma amabilidade cuja causa a obra atribui a nobreza da alma angelical e delicada da mestiça Maria, enquanto ideal de mulher romântica. Esta rotura, este tratamento “anómalo” merece ser objeto de uma obra literária e em O escravo é denunciado nas vozes de Júlia, Luiza, Cacilda, Maria e do próprio escravo, o João, vejamos os testemunhos:
Júlia pergunta:
– E quem são esses entes que trataram o escravo de uma maneira tão oposta à regra geral?
Luiza diz:
– (…) tu, João, não estás nesse caso; tu não és infeliz. Não gozas tu da confiança de teus senhores? Não te preferem, não te tratam eles de modo a despertar a inveja em teus companheiros? E devo eu ir afligir-te com a narração de meus males; desviar-te do caminho da felicidade, para te fazer entrar na melancólica vereda que trilho?
Cacilda afirma:
– Ora, com que tu vens! João é escravo privilegiado, faz o que quer. Seus senhores gostam tanto dele, que até o mandaram ensinar a ler. É verdade, ó João, bem podias tu, em quanto esperamos, fazer-nos parecer o tempo mais breve, contando-nos alguma das histórias que tens lido.
Maria declara:
– Teu coração é nobre, tua alma bem formada; pela inteligência és superior a muitos que nasceram livres; mereces pois a minha estima, nem me envergonho de te ouvir.
O próprio João reconhece que é alvo de um tratamento diferente do de outros escravos

– E, contudo, há momentos em que eu deploro que o meu espírito tenha saído da esfera do de meus semelhantes; há momentos em que eu de boa vontade trocava o saber que devo a vossos cuidados, pela ignorância daqueles que como eu nasceram escravos.
Assim, a Maria surge como a mulher promotora de mudança do paradigma social. João, muitas vezes, não sabe como agir com a sua senhora e perde-se entre o dever de reverência, a liberdade de expressão que esta lhe concedeu e a impossibilidade de lhe expressar o amor que inunda o seu peito e afoga a sua alma.
(…) Perdoai-me senhora (…) conheço quanto fel, quanta amargura destila a frase que ousei avançar; mas ouvi-me, e estou certo que o vosso coração – justo como é – não se recusará a absolver o cativo da culpa de falar tão livremente a sua senhora.
Maria aparece, ainda, como a mulher que promove a dignidade humana, ao olhar para o João como um ser cheio de capacidades intelectuais e decidir investir no desenvolvimento e aperfeiçoamento dessas capacidades cognitivas, por via da instrução, provocando uma grande rotura na cadeia de valores da época, pois a representação que se tinha do escravo na época está nas palavras que se seguem:
(…) Era pois, como dizia, um ente destinado a servir de joguete a uma criança, que me repetia a cada passo o que ouvia aos demais senhores de escravos: Estes negros são uns animais superiores aos macacos só no falar – o seu mestre deve ser o chicote – a tortura o incentivo para os fazer trabalhar.
A morte deste pequeno senhor de escravos, primeiro dono do João, representa uma virada na história de vida do João. Poderia ter sido vendido. Porém, os céus bradaram em seu favor na voz da Maria e o João de tal destino se livrou.
– (…) vós vos opusestes a essa venda; e aquele que tinha recentemente perdido um filho, entendeu que devia anuir cegamente aos desejos da única que lhe restava.
A instrução há-de marcar toda a diferença na vida do João, assim como marcou toda a diferença na totalidade dos cabo-verdianos em comparação com outras sociedades escravocratas.
– e de vossos lábios saiu esta pergunta sucinta – composta de duas palavras, mas que influiu em todo o meu futuro. Disseste-me: Queres estudar?
As duas últimas são palavras mágicas e representam um divisor de águas na vida do João. A atitude que está por detrás da pergunta parece ser uma reprodução de papéis que começou no Bispo, tio-avô de Maria.
Neste Ponto Maria aparece como a mulher que fomenta aquela instrução que liberta a alma e o espírito ainda que o corpo continue cativo. O modelo de instrução um a um, numa época em que não havia escola, foi determinante na construção de uma massa intelectualizada em Cabo Verde e consistia na transmissão dos conhecimentos de pai para filho. A participação das mulheres nesse processo foi aumentando gradativamente e não nos parece que alguma vez se tenha posta em causa a sua capacidade de aprendizagem. O Excerto que se segue é testemunho disso.
Ali ele se ocupava em transmitir a sua filha a educação que havia recebido do Bispo que o protegera; e aquela adquiria, com prodigiosa facilidade, a instrução subida de que seu pai podia dispor. Maria, dotada de uma compreensão fácil – de uma penetração de causar inveja aos mais talentosos – possuía – além dos lisonjeiros dotes físicos – um coração de têmpera sumamente delicada.
Esta instrução funcionou para Maria como um antídoto ao preconceito racial, aos estereótipos socias e a qualquer outra forma de descriminação. Assim, enquanto todos os escravos são coisificados à escala global, a alma nobre de Maria moldada pela instrução afirma a identidade do João de modo a não só protege-lo da tirania do sistema, como a enaltece-lo.
(…) És agraciado por Deus com o dom da compreensão – meu João a quem cultivou o espírito (…) Teu coração é nobre, tua alma bem formada; pela inteligência és superior a muitos que nasceram livres; mereces pois a minha estima, nem me envergonho de te ouvir.

Esta forma de tratamento dedicado a um escravo por si só representa uma inversão de valores sociais inaceitável no tempo histórico do romance. Mas torna-se inusitado quando essa diferença de comportamento é promovida por uma mulher e chega a ser uma afronta ao estereótipo social de quem é o senhor de escravos. É esta subversão que concorre para conferir à Maria a perfeição e a divindade características do ideal de mulher romântica. Pois vai contra todos os ideais instituídos para promover o que acredita ser o certo. Assim, da sua boca saí o que seria a realização do mais profundo desejo do coração de qualquer escravo – o pronúncio da liberdade, a alforria. Pois quando João reclama, na sua condição de escravo, de um amor profundo que não pode revelar, Maria, que não entende a sua colocação, presume que João anseia por alforria e declara:
– Aquela que não se desdenhou de estender a mão ao escravo, e dar-lhe a porção que os seus lhe negavam, não deve, por forma alguma, concorrer para a tua desdita: Que precisas, para que possas apreciar a educação que possues? Para que consigas aproveitar da elucidação do teu espírito? A liberdade?… És livre, e queira Deus que nunca tenhas motivo para te lembrares com saudade do tempo em que foste escravo.
É neste momento que ela percebe uma nova inversão na cadeia de valores sociais, pois ao contrário de todos os escravos, João não almeja alforria e protesta:
Vós porém, senhora, me provais que as penas neste mundo não têm limite! Ainda há pouco, eu julgava não ser possível haver golpe que redobrasse o meu sofrimento – tão agudo era ele, tão violentas as torturas por que me fazia passar! – Enganei-me: tudo quanto havia experimentado, não foi mais que o prelúdio da maior desgraça que vós me anunciais.(…) Ai de mim! Eu não julgava que a narração de meus males merecesse um tão violento castigo! Não era a liberdade que eu vos pedia; não: a liberdade?! De que me serviria? Tirar-me-ia ela de sobre a fronte o ferrete da ignomínia que o destino ali imprimiu ao meu nascimento? Tirar-me-ia a liberdade o olvido do meu passado? Não; (…) A liberdade era deixar-vos; e deixar-vos fora para mim martírio ainda mais cruel do que todas porque até aqui tenho passado. Servir-vos com todo o desvelo do meu coração, é quanto posso fazer para mostrar-vos o meu reconhecimento. E sendo a gratidão o mais belo predicado de meu peito, avaliai quanto me fora doloroso, se me tirásseis os meios de poder mostrar-vos – pela dedicação do meu serviço – toda a extensão do meu agradecimento.
Passamos, então, a encarar a Maria como mulher cativeiro da alma. Pois o maior cativo não é o corpo do João, é o seu coração e ele só alcança, só pensa Maria, através do coração. A liberdade roubar-lhe-ia a essência da alma, a razão da sua existência. O amor que nutre por Maria, e que esta, inconscientemente, atiça com suas palavras de meiguice, estima, consideração e até de admiração, mas, sobretudo, com um sentimento de pertença e um discurso de posse expresso através do composto possessivo “meu João”, são os verdadeiros ferrolhos que o prendem.
A Maria se manifesta como promotora da libertação do espírito ao investir na instrução do João. Porém, tudo o que João aprendeu e que fez dele um escravo douto, coisa singular na época, perde valor. Isto porque, ao mesmo tempo que o prendia ao amor impossível, atiçava o abismo entre ele e seus semelhantes. Na confusão de sentimentos e crise de identidade, muitas vezes, sua cabeça alimentou desejos que podiam representar profundas desgraças para o seu coração – imaginou-se livre…
A ambição da glória entrou no meu espírito; esqueci o que era: julguei-me livre!… OH! E tão livre, que a meu lado pendia uma espada …o delírio apossou-se do meu cérebro…e eu corria…corria com o fim de libertar meus irmãos do cativeiro! De então para cá, mal podeis imaginar, senhora, de quantas dores tem sido vítima o meu coração!
A Maria aparece, então, entre a liberdade do espírito e a prisão do corpo e da alma.
(…) Desenvolvestes em mim sentimentos que se não compadecem com a condição do escravo – mostraste-me o caminho do saber, entrei nele – caminhei a passos agigantados – mas chegando ao meio, uma voz sinistra me brada: ”escravo” e eu recuo horrorizado! Abristes-me as portas do entendimento, mas quando busco ler no livro do meu futuro, encontro em todas as páginas a palavra “escravo” escrita em caracteres pretos, oh! Pretos como o meu semblante!…
Preto, no romance, simboliza a ausência de esperança, de luz e de realização futura. A desgraça que pairava sobre o João era um fatalismo desde sempre, determinada pela condição de escravo, cuja cor do seu rosto não permitia esconder. Pois, ainda que a sua mente fosse iluminada pelo conhecimento, tão amavelmente transmitido por sua eterna amada Maria, o seu destino estava condenado à escuridão por causa da sua cor preta.
O branco, para melhor aproveitar a força física do negro, não só usava a sua cor como argumento para o desprezar, como também lhe dificultava o conhecimento. Mas João, devidamente instruído por Maria, analisa e critica esse pensamento medíocre e desprezível que o branco divulgava, visando tão-somente os seus interesses mesquinhos e pessoais:
A cor é um atributo do corpo, e não da alma; a cor é um indício do país, e não do espírito; a cor não obsta a que a nossa pele seja tão acetinada como a deles – nem a que possuam nossas mulheres olhos e dentes tão belos como os seus mais belos. Mas eles em vez de cultivarem a nossa inteligência – o que lhes tornara mais útil o serviço do escravo – tratam de estultificar-nos o espírito, impondo-nos a obediência passiva – de embrutecer-nos o entendimento pelo excesso de trabalho – tudo porque teme que nós pugnemos por uma liberdade, que é nada em comparação da que eles querem para si.
Ciente de que é vítima de um amor impossível, mas torturado por um sentimento que lhe estilhaça o peito, João aventura-se na contemplação da amada enquanto refrigério para o seu suplício. Porém, desgraçadamente vê-se obrigado, pela nobreza do seu caráter, a rasgar o seu peito e a por à mostra os seus mais profundos sentimentos, decretando assim o seu banimento. Pois dos lábios da Maria saiu o seguinte prenúncio:
– João, és forro; dou-te a liberdade: sai desta casa, onde jamais buscarás entrar.
O que para muitos seria um prémio, para o João representava o pior dos castigos. E perante tal desgraça, João vê na morte a única saída.
– Piedade! Piedade!… De que me serve a vida longe de vós? Oh! Dai-me a morte… eu vo-lo peço… Banido, meu Deus! Se a morte instantânea vos parece castigo muito leve, em relação à enormidade do meu delito, ordenai a tortura física: dai ao menos ao escravo a consolação de presumir que seus queixumes serão ouvidos por aquela, cuja presença é o único bem, que até aqui lhe tem sustentado a vida! Já que é impossível pertencer-vos pelo amor, deixai-me – como cativo – continuar a ser vosso. Não, eu não posso obedecer-vos! Ficarei aqui a vosso pesar; e então a minha contumácia vos obrigará a ordenar o castigo que com tanta ânsia vos peço!…
Maria pretende ser para o João sempre a saída para a liberdade
– Insensato! – disse Maria apoderando-se de um tom severo, que prestes abandonou:
– Não ficarás aqui, porque eu não o consinto; serás forro, porque eu o ordeno; viverás porque eu o quero; obedecer-me-ás em fim, porque o meio mais seguro de provar o amor não é decerto rebelar-se contra os desejos de quem se ama.
Porém, não podendo viver ao lado do seu grande amor, o João continua procurando na morte o único caminho para fugir do sofrimento, a única solução para os problemas existenciais, a única saída para a verdadeira liberdade.
Assim, O João, enquanto herói romântico, precisa escapar da morte promovida pela mãe, pois deseja encontrar o descanso eterno nos braços da sua amada. Por isso, depois de ser Banido e tendo conhecimento de que Maria corre perigo nas mãos do bandido Lopes, reúne todas as suas forças e, tendo ainda muita razão para viver, corre com tudo o que tem: corpo, alma e espírito, a fim de libertar Maria das garras do meliante. Uma forma romântica e heróica de provar o seu amor, entregando sua vida por ela. Este é um amor que encontrou sua recompensa na morte. Pois foi nessa hora que pode experimentar a felicidade suprema, quase morto, vítima de um disparo do Lopes contra o seu peito, mas debaixo dos afagos da mulher amada. Em vida foi um ser desajustado, considerando os estereótipos de modelos sociais da época que deambulavam num mundo onde o João não se encaixava. Mas a morte proporcionou-lhe um lugar no seu mundo, no mundo dos seus eternos sonhos – o seio da Maria.
E assim o seio feminino é revelado na obra como o lugar de completa realização da alma moribunda.
– Maria, expirar nos teus braços, era quanto neste mundo podia apetecer. Se tu soubesses quanto neste momento eu sou feliz! Olha, olha para mim: notas acaso, no meu rosto, algum sinal de sofrimento? Algum indício de susto por ver aproximar-se a hora do passatempo? Não, porque o gozo que desfruto é indizível! A morte, senhora, vai tornar-me teu igual; o anjo da agonia, que eu vejo adejar em torno a mim, diz-me que eu posso, sem ofender-te, apertar entre as minhas esta mão, sobre a qual tu permites – não é assim? – Que eu descanse muitas vezes meus lábios…Eu amo-te Maria…oh! Eu posso dizer-te sem pejo, porque a morte vai purificar o amor do escravo…Estas lágrimas que humedecem tua mão são de ventura…E nisto a cabeça do escravo caiu sobre o seio da virgem; e ali os seus beiços procuravam o calor que já lhes ia faltando. Depois, apontando para o Céu, ele disse com a desfalecida voz do moribundo: Adeus!…espero-te lá em cima…ali amar-me-ás tu? Ah! Diz… diz que sim…, Maria, virgem pura…Maria, senhora da minha alma, um beijo teu…em quanto vivo…
Terá o João alcançado a felicidade eterna? Esta é a pergunta que empurrará o leitor de José Evaristo de Almeida: O Escravo Epístola a… – Edição Crítica para o fim da obra, pelo que convidamo-lo e incentivamo-lo, vivamente, a prosseguir a sua leitura.
Praia 21 de dezembro de 2016
muito longo
Pois é K. Júnior, mas,também, muito interessante.