HISTÓRIA, MIGRAÇÃO E CIDADE: DIMENSÕES DA POLITICA URBANA NA ILHA DE SÃO VICENTE EM CABO VERDE (1980-2000)
Actualidade | Etiquetas:Identidade | 24 Fevereiro, 2012 | 5 Comentários Partilhar
A FORMAÇÃO CABOVERDIANA EM SUA DIMENSÃO HISTÓRICA
Cabo Verde é um arquipélago formado por dez ilhas e cinco ilhéus, que perfazem uma superfície de apenas 4.033 km2, mas dispõe de um espaço marítimo que ultrapassa os 600.000 km2. Localizado na desembocadura dos continentes Africano, Europeu e Americano,o arquipélago fica em frente do cabo homônimo na costa ocidental da África,dele distanciando cerca de 500 km2. As ilhas fazem parte da Macaronésia,designação regional que engloba os arquipélagos Açores, Madeira, Canárias,Selvagens e Cabo Verde, situados a S.W da Europa e a N.W da África, entre os paralelos 14o e 40o de latitude norte e os meridianos 13o e 32o de longitude oeste de Greenwich, segundo os geógrafos António Teixeira e Luis Barbosa (1958).
Descoberta em 1400, por navegadores a serviço de Portugal, sob o patrocínio do Infante dom Henrique, a colonização teve início,
em 1462, com europeus provenientes em sua maioria de Portugal. Em 1466, a Carta de Privilégios autoriza a entrada de negros africanos para ajudar no
desenvolvimento econômico da Colônia. Neste caso, o pesquisador Artur Bento (2005:17) evidencia que os escravos provenientes de uma diversidade étnica, no sentido de serem portadores de um acúmulo de heranças culturais, que permitem distingui-los de outros grupos sociais, foram “arrancados das suas raízes e trazidos para Cabo Verde, perdendo contato com suas tradições, tais como: sistema de parentesco, casamentos, utensílios de trabalho, artefatos, religião, alimentação, até a forma de enterrar os mortos de acordo com preceitos e tabus”.
Como pode der observado, inicialmente, não havia caboverdiano
em si, mas uma miríade de caboverdianos que foram tomando forma, à medida que portugueses e africanos foram diluindo as barreiras sociais, que se deu através do entrecruzamento de fatores e tendências. Associado a isso, é preciso frisar que o imperativo da assimilação da cultura portuguesa destruiu os enraizamentos territoriais de origem africana, de modo que as expressões culturais africanas ao serem fundidas com a cultura portuguesa, deixaram de ser “africana” para se constituir algo “caboverdiano”. A partir disso, se constrói o povo caboverdiano, no sentido de coletividade de cidadãos. Assim, desenvolveram-se as classes e os grupos sociais, CaboVerde deixa de ser prisão de seus habitantes para se constituir a nova pátria, a qual as gerações de caboverdianos guardam os valores deixados pelos caboverdianos pioneiros como fonte de coesão nacional.
Um dos enfoques da caboverdianidade é o entendimento da identidade, não como uma estrutura fixa, mas como um processo dinâmico, enfatizando o papel de portugueses e negros africanos na sua constituição. Por isso, o fio condutor para pensarmos a identidade caboverdiana não deve se passar por critérios “cor” e “raça”. Mas, pela cultura fabricada na nova pátria, onde caboverdianos, independentemente de sua cor, vivem em harmonia, respeitando os valores que embasam a sociedade.
É particularmente problemático pensar o caboverdiano em termos raciais, à medida que a população não constitui uma “raça” e nem um grupo hegemônico. Ao contrário, esse povo é uma mistura de duas raças (branca e negra), cuja mestiçagem deu origem ao nascimento do homem caboverdiano.
Os estudos da antropóloga Manuela Cunha (1986) sobre a identidade africana no Brasil, pode nos servir como ponto de apoio para relativizarmos a identidade africana em Cabo Verde.
Conforme a autora, os ex-escravos que optaram pelo retorno a África no final do século XIX após a abolição da escravatura, em 1888, chegando à Nigéria, assumiram a identidade de “brasileiros e católicos”, enquanto seus patrícios que permaneceram no Brasil buscaram resgatar a religião dos Yoruba. A partir disso, a identidade africana passou a ser relativizada, desconstruída e desnaturalizada. Nessa linha de raciocínio, o sociólogo Roberto Damatta (1987) analisa a identidade brasileira, a partir da
“Fábula das Três Raças” que compõem o triângulo “branco, índio e negro”,
opondo, sistematicamente, ao “sistema binário” norte-americano, que opõem branco e negro, levando o racismo aos extremos com a Lei Jim Crow (1876-1965), que negou aos negros, índios, asiáticos e latino-americanos uma série de direitos civis.
A historiadora Oracy Nogueira (1985) afirma que nos EUA, o termo “negro” denota agressão e desvalorização. Porém, “black” ou “preto” é usado naturalmente. No Brasil, “preto” é agressivo e “negro” respeitoso. Damatta esclarece que no Brasil se usa “negro” porque se quer colocar a diferença na “cultura”, enquanto nos EUA o “black” quer ser americano e exige direitos iguais aos “brancos”. Lá, preto e branco são usados porque querem comunicar que a diferença é social; no Brasil se fala de negro porque a diferença é cultural. A antropóloga Moema Teixeira (1986) descobre outro
viés mais relativizador, onde não há “nem brancos, nem negros e nem pretos”, mas “claros e escuros”. Há ainda aqueles, que desde o antropólogo Nina Rodrigues (1894), falam da mestiçagem, elogiando e descrevendo o aumento de pardos na população brasileira.
Em Cabo Verde, a análise da identidade deve se passar pelo crivo da
mestiçagem por algumas razões consideradas fundamentais: a mestiçagem refere-se ao cruzamento dos grupos em presença; as péssimas condições de vida, desde cedo, atingiram a coletividade de caboverdianos; não existe um sistema que opõe “brancos, pretos e mulatos”; a formação caboverdiana é imediata porque entre o “africano” e o “português” há o “mulato” e os três grupos constituem a nação; entre os caboverdianos não existe “negro e branco”, mas, “escuro e claro” e isso é falado naturalmente; o “negro” não é usado quanto se fala de próximos, mas quando se refere a um terceiro distante, sendo usado em situações contextuais. Assim sendo, não é permitido sair de uma ordem para outra com facilidade.Com isso, o sistema caboverdiano valoriza as diferenças por contigüidade e dilui as oposições por ser relacional, opondo, sistematicamente, ao sistema binário norte-americano, e, aproximando-se do sistema brasileiro.
Desse modo, opomos a idéia da psicanalista Neusa Souza (1990) sobre o “tornar-se negro”. A princípio, ninguém é negro, visto que os indivíduos nascem pretos, brancos ou pardos e, as três ordens não se misturam. Torna-se negro significa remeter-se à raiz africana, construir a identidade através da origem, o que é problemático e/ou inviável nas culturas crioulas ou mestiças. Independentemente da escolha dos signos, existe uma terceira força que atua entre as cores das pessoas, a “cultura” que comunica diferenças significativas e impõe limites à “cor” e a “raça”. E, mesmo que os caboverdianos ultrapassem as fronteiras físicas, eles mantêm suas características culturais.
Caboverdianos Migrando em Busca de Novos Horizontes
Do final do século XVIII ao século XX, a migração marcou a vida dos habitantes de Cabo Verde, percorrendo trajetos na busca de novos espaços que possibilitem melhores condições de vida, de modo que 517.780 residem no exterior do País, número equiparado aos residentes, contabilizado em 517.83l, conforme dados do Instituto Nacional de Estatística – INE (2010)
As migrações internas vêm ocorrendo desde a década de 80, motivada, em parte, pelas restrições impostas nas saídas e entradas de migrantes nos países desenvolvidos. Contudo, no início de 90, com a abertura política em Cabo
Verde, houve um aceleramento migratório devido ao crescimento da economia. Em grande parte, as migrações têm se direcionado das áreas rurais para as áreas urbanas, sendo este movimento impulsionado por aspectos socioeconômicos decorrentes de problemas relativos à seca, e a ausência de uma política agrícola adequada, que permita a fixação do homem no campo. Nesses deslocamentos estão compreendidos os segmentos populares, especialmente, a mais pobre, que abandonam as vilas, as povoações e os povoados de cidades do interior em busca de oportunidades nos centros urbanos. Para esses migrantes, as cidades do Mindelo e da Praia (ilha de Santiago) têm sido as mais visadas, representando a esperança de superação das condições de pobreza. Nessa direção, o Ministério da Qualificação e Emprego (2008) informa que Praia recebeu 56% dos trabalhadores migrantes, e Mindelo 28%.
Outro dado é a de que os deslocamentos ocorreram das áreas rurais para as áreas urbanas, se tivermos em conta que a população urbana é de 321.498 (62,09%) e a rural de 196.333 (37,9%), o que indica um saldo negativo para a vida no campo.
Neste contexto, os fluxos migratórios contribuíram para consolidar o sistema de cidades. A migratória abriu a perspectiva de articular os deslocamentos com a possibilidade de melhores oportunidades. Os caminhos percorridos pelos migrantes, através das cidades, trazem a esperança de um futuro melhor. De fato, é a própria sociedade caboverdiana que se transforma cada vez mais em urbana, tornando irreversível a hegemonia das cidades do Mindelo e Praia, não só como locais privilegiados das atividades econômicas, financeiras e educacionais, mas também como centros de difusão de novos padrões de comportamentos, inclusive as relações de produção e estilos de vida. É o Cabo Verde moderno, urbano, industrial, que se sobrepõe ao Cabo Verde arcaico, rudimentar e embasada numa agrícola de subsistência, que desencadeou alto índice de desequilíbrios entre as ilhas.
Vale ressaltar que o arquipélago vem acumulando uma grande experiência no campo do planejamento estratégico, com o desenvolvimento de Planos Plurianuais (2002-2005), marcando melhorias na qualidade de vida da população. Nesse âmbito, Portugal e a União Européia têm sido grandes
parceiros, testemunhado na Parceria Reforçada de Cabo Verde e a União
Européia, em 19 de novembro de 2007. Bento (2009: 82) afirma que esta parceria constitui avanços da política caboverdiana, “tendo em vista o aprofundamento das relações de vizinhança, o estreitamento das redes econômicas e comerciais, visando à abertura ao mercado interno europeu, e a mais valia para Cabo Verde”. No contexto estratégico, o Ministério das Finanças e Administração Pública (2008) aposta no desenvolvimento
de uma economia sustentável, que potencializa o turismo, o patrimônio, a
biodiversidade, além de programas de saneamento básico como a melhoria de condições de infra-estruturas de distribuição de água, ligações domiciliárias de água e esgotos etc.
A migração caboverdiana se fundamenta na variável econômica, como fator repulsivo e atrativo dos sujeitos caboverdianos. Considerando a relação entre migração e economia, a saída do local de origem se explica pela “Push And Pull Theory”, ou seja, pela “Teoria de Repulsão e Atração”
movida pela desigualdade econômica existente entre as ilhas, bem como entre elas e os países acolhedores. Os fatores repulsivos abarcam a seca, o desemprego, os baixos salários, as terras improdutivas,a pobreza, as fomes que até a década de 40 chegou a matar em média “31% da população (1863 e 1866); 17% (1921 e 1922); 40% (1940 e 1948)”. Os fatores de atração se traduzem em melhores alternativas para os caboverdianos que se deslocam, colocando inúmeras vantagens nas cidades Mindelo e Praia.
A migração caboverdiana é um fenômeno basicamente econômico, tanto push quanto pull, isto é, os fatores de repulsão e atração determinam o processo migratório. Todavia, a migração se vincula à tomada de consciência de poucos recursos circunscritos nas áreas de repulsão e de boas oportunidades nos locais de destino. Por outro, a decisão de emigrar depende também da família e das relações sociais já estabelecidas nos locais de acolhimento. A repulsão se materializa, à medida que existe uma capacidade
de atração da parte de outra área. A compreensão que expressamos é a de que a falta de alternativas nos locais de origem não determina, por si só, o projeto migratório, mas é necessário ter consciência das oportunidades nas áreas de atração.
Memória, Civilidade e Urbanização da Cidade do
Mindelo
A saída de caboverdianos de suas ilhas de origem em direção a cidade do Mindelo (fig. 1), ilha de São Vicente, em busca de melhores condições de vida, advindo do crescimento econômico na década de 90, levou a ilha a título de território predominantemente urbano num espaço de dez anos. Mindelo tornou-se um dos pólos de atração mais importante de Cabo Verde, o que trouxe um aumento significativo da população,
passando de “67.511, em 2000, para 81.244, em2010”.

Figura 1
A entrada de indivíduos,especialmente, da ilha de Santo Antão, na condiçãode migrante, deixa transparecer à dura realidade a que viviam. Nos anos de escassez de chuva,enfrentavam a seca e seus desdobramentos. Desse modo, não havia alternativa,senão partir para Mindelo em busca de oportunidades. A migração tornava-se imperativo e, apesar das adversidades, a vida na cidade representava uma melhoria, se comparada à vida que levavam anteriormente. por outro, a migração foi impulsionado, em função da vida anterior de familiares e amigos, que ao estabelecerem em Mindelo, décadas atrás, acenavam-lhes para a possibilidade de melhores oportunidades. Aqueles migrantes passaram a residir nos subúrbios e
nas áreas rurais como Madeiral, Calhau, Lazareto, São Pedro, Ribeira de Julião, Mato Inglês, Salamansa. Somente Baia das Gatas (fig.2) não foi habitada; hoje, local onde acontece o Festival Internacional de Música da Baia das Gatas, desde 1984, no primeiro final de semana do mês de agosto. Se por um lado, os deslocamentos representavam a superação da escassez, por outro, o baixo nível de instrução profissional gerou uma multiplicidade de trabalho informal, que pode ser mais uma forma de urbanização da pobreza.

Transitar pelas ruas das cidades do Mindelo e Praia na década de 80 é conviver com hábitos sociais bastante variados. Pelas ruas circulavam carros, bicicletas;animais soltos, homens desocupados, estudantes, crianças, mendigos, humildes senhoras, senhoras com vestidos bem talhados, velhos pedintes, turistas e negociantes ambulantes. Enfim, pessoas e meios de transportes que evidenciavam práticas sociais conflitantes presididas por códigos socioculturais construídos historicamente. Não por acaso, no contexto dessa estrutura social, observava-se lixo espalhado; pessoas urinando e defecando em público, enquanto outras carregavam lixo em baldes (fezes, água suja, urina etc.) para serem despejados
nas “achadas e/ou covadas”, autênticos banheiros ao ar livre, onde os pobres
evacuavam a luz do dia, limpando, em seguida, com pedras, papéis sujos,
farrapos e bolsas de plásticos, a exemplo das achadas Torrada, Bela Vista,
Monte Sossego, Ribeira de Julião, Ribeirinha, Causin no Centro da cidade etc. Isso quer dizer que vivemos o tempo de bairros/achadas, pois do Mindelo aos subúrbios deparamos com imensos depósitos de lixo, melhor, imensos banheiros públicos ao ar livre usados naturalmente e sem a preocupação com a intimidade. Trata-se de costumes socioculturais herdados da condição de pobreza do período colonial, dando prosseguimento com a independência, em 1975, por quase duas décadas.Outro ponto a mencionar são os chafarizes e torneiras públicas para o abastecimento de água à população. Esses locais públicos propiciavam diversas formas de sociabilidades, mantendo os moradores informados das notícias da vida na rua, do bairro e da cidade. O uso coletivo da água aflorava nos indivíduos sentimentos de pertencimento ao espaço urbano, mas, a falta sistemática da água e o não acesso aos serviços de abastecimento de água encanada tornavam-se os chafarizes em locais de disputa, de conflitos e de exclusão social. No entanto, a falta provisória da energia elétrica, se considerar que a maioria da população vivia na escuridão da noite, e da água para a elite dominante era intolerada, porque representava uma perda dos confortos trazidos com o uso da luz artificial e do caminhar seguramente à noite pelas ruas e praças da cidade .
À medida que o governo deixava de dotar os subúrbios com os equipamentos urbanos empreendidos nas áreas centrais, o poder público, estrategicamente, excluía dos seus programas as camadas pobres da cidade.
Nas décadas de 80 e 90, os hábitos socioculturais passaram a ser intolerável, à medida que colocavam a saúde das pessoas em risco por atuar como focos
potenciais de proliferação de doenças. Associado ao projeto urbano, a Câmara Municipal promoveu medidas administrativas e coercitivas, impondo um controle mais eficaz aos indivíduos pertencentes às camadas populares, advertindo a população a depositar o lixo nas achadas, sem que isso representasse qualquer forma de criminalização, devido à fragilidade econômica e educacional do País.
Assim, foram contratados trabalhadores em regime permanente para varrer as ruas da cidade, caçar animais soltos; vigiar indivíduos urinando próximo a prédios públicos, repreender pessoas que não depositasse o lixo nas achadas, que, posteriormente, eram queimadas e enterradas pelos agentes fiscais.
O policiamento dos hábitos teve um papel fundamental na cultura cívica do Mindelo, mesmo que tenha instaurado um processo de construção da diferença, à medida que os habitantes da cidade modelo passaram a punir os velhos comportamentos, ainda arraigados nas populações pobres dos bairros suburnanos da Praia. É preciso frisar que os hábitos não condizentes com a civilidade estão associados a falta de condições mínimas de vida, à medida que até os anos 90, a maioria da população caboverdiana não tinha acesso a água encanada, ao banheiro e a energia elétrica. Hoje, o acesso “à água em rede passou de 24,1%, em 2000, para 42%, em 2008; banheiro, de 38% para 56%, e, à energia elétrica, de 50% para 74%” (INE, loc. cit). Portanto, nos anos 90, os aspectos arcaicos da cidade dão lugar a novos padrões urbanísticos, que passou a dificultar construções desordenadas de habitações. A forma de concessão de terrenos transformou-se em mais um instrumento de poder, que dificultava os mais pobres, à medida que as autorizações para as construções de imóveis eram cedidas àqueles indivíduos que pudessem construir edifícios com prazos previamente determinados pela Câmara Municipal. É possível ver-se enquanto membro dessa sociedade, as marcas que os grupos dominantes, conscientes ou inconscientemente imprimem na dimensão da vida das pessoas, singularizando suas experiências ao coletivo.
Apagando os hábitos das camadas populares, a elite dominante agia de modo a imprimir na cidade as ações de um programa que corresponde às marcas do progresso. Com isso, os mais pobres foram empurrados para os espaços afastados da cidade e seus subúrbios, levando-os a habitar nas montanhas (fig. 3), e alheia às regulamentações do poder público.

Figura 3
Posteriormente, esses espaços habitacionais se transformaram em regiões
suburbanas, passando a ser incorporada pelo governo municipal como áreas
sujeitas ao planejamento urbano. Mindelo, na primeira década do século XXI, demarca as fronteiras da diferenciação de classe. Como enuncia Burawoy (1985: 39), a classe “torna-se o efeito combinado de um conjunto de
estruturas econômicas, políticas e ideológicas situadas em todas as arenas da
atividade social”. Trata-se de uma sociedade em desenvolvimento, mas atravessada por contradições e discrepâncias sociais.Obviamente, uma
sociedade desigual num curto prazo de tempo, em que alguns sectores sociais se instalam em posições seguras de classe média e alta, tornando visível a
condição dos pobres. Os dados estatísticos apontam que “a pobreza caiu de 49%, em 1998, para 37%, em 2002”
(INE, loc. cit), sem que isso signifique a erradicação da pobreza. Pois, o crescimentoeconômico vem trazendo a concentração da riqueza nas mãos de uma minoria de empresários, gestores de grupos econômicos mais poderosos. Nessa direção, traduzindo a análise do pesquisador português Elísio Estanque (2009) sobre “sociedade portuguesa”, para a sociedade caboverdiana, pode dizer que as linhas divisórias da desigualdade tornaram-se fluidas, mas as barreiras de ascensão social, econômica e educacional tornaram-se mais rígidas, empurrando para baixo os pobres.
A idéia de um progresso advindo com a modernização do Mindelo demonstrava, de fato, a existência de relações de poder que implicavam a eliminação de costumes socioculturais, em particular, nas camadas pobres, costumes, esses, não compatíveis com a civilização. No contexto de um País independente organizado sob a forma de uma República, a cultura cívica partia da introjeção de valores educacionais via escolarização.
Uma vez introjetado o processo cívico, os novos comportamentos passaram a impôr a convivência pública, de acordo com os modos polidos.Um aprendizado que se inicia em casa, mas requeria um refinamento em termos de aquisição de formação de hábitos na escola, principalmente, no ensino infantil (fig. 4).

A educação tornou-se um campo estratégico no processo civico e de configuração das esferas pública e privada da vida social.
Além da valorização da intimidade, através de práticas de policiamento dos costumes, também ocorreram novas formas de sociabilidade entre os sexos, com a convivência social nos clubes desportivos e salões, espaços intermediários entre o lar e a rua. Tratam-se de espaços abertos para a realização de saraus culturais, teatros; festas; reuniões, a exemplo dos salesianos, da Associação Acadêmica do Mindelo, do Grêmio Associativo Castilho, dos cinemas Éden Park e Miramar.
Vale ressaltar ainda que na década de 90, foi empreendida uma série de reformas de prédios públicos herdados do periodo colonial, bens imóveis de propriedade do poder público, admnistrados pela Câmara Municipal. Neste sentido, incluem-se não somente edificações e os estilos de arquitetura urbana, bem como os equipamentos coletivos destinados ao conforto da população, como o pelourinho de peixe (fig. 5), que, em parte, coibiu a venda do mesmo nas ruas, época em as mulheres percorriam a cidade com
balaios na cabeça, clamando “oli pexe”, ou seja “aqui tem peixe”.

Além do pelourinho de peixe, a Câmara Municipal promoveu uma série de reformas no pelourinho de verdura (fig. 6), como forma de valorizar a venda em locais fechados, diferentemente, da venda nas ruas com balaios na cabeça.

As observações empreendidas levaram-nos a destacar que a modernidade se
distanciou das demandas cotidianas de segmentos populares habituados no seu dia-a-dia a improvisar estratégias de sobrevivência. A um primeiro olhar, são as marcas que estão visíveis quando se desloca pelas ruas do Mindelo (fig. 7), mas sob as marcasrepousam no tempo a ação opressora dos idealizadores de uma cidade modelo.

Figura 7
O planejamento buscou incutir nas camadas populares a cultura cívica,
através de novos padrões arquitetônicos, de acordo com o modelo da cidade
universal. Assim sendo, ao discutirmos as estratégias que decorrem do
planejamento urbano, estamos problematizando as dimensões da vida urbana. As políticas públicas foram organizadas de modo a solidificar uma memória da cidade, através do policiamento de hábitos considerados não civilizados, procurando imprimir no Mindelo as marcas da civilização.
Com isso, os programas forjaram uma memória social urbana, de modo a torná-la como pertencente à cidade e a sociedade caboverdianaem geral. Os poderes públicos e privados atuaram como agentes legitimadores das estratégias de institucionalização da revitalização do Mindelo, desde o embelezando das ruas com novas espécies de árvores, em substituição das acácias, até os novos significados atribuídos aos espaços arquitetônicos (fig. 8), representados simbolicamente através de objetos da cultura material.

Figura 8
Diferenciando-se culturalmente dos demais grupos, era, portanto natural
que a elite do Mindelo buscasse construir uma identidade que pudesse ser
reconhecida também através dos lugares, seja em novos modelos arquitetônicos, seja na reforma dos edifícios coloniais, seja na instalação de equipamentos coletivos urbanos ou na seleção de locais a serempreservados. A dimensão da cidade redimensionou a hierarquia existente em São Vicente, ao passo que também propiciou a exclusão social, sem que isso signifique marginalização, à medida que existe uma tendência de ascensão social, à medida que o governo nacional vem buscando um desenvolvimento sustentável em nível nacional.
O projeto urbano levado a efeito pelo governo da cidade visando o alcance do progresso urbano e de civilização das condutas, fazem parte de uma memória social que se quer lembrar. Os espaços urbanos foram sendo
reconstruidos, através do policiamento de costumes, de forma a impregnar nas camadas populares os valores condizentes com a civilidade.
A apropriação de novos comportamentos não está relacionado com a posição social que cada indivíduo ocupa na sociedade, mas com as vivências que os sujeitos experimentam nas relações de poder.
Professor Artur Monteiro Bento (Estagiário Pós-Doutoral
no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, UFRJ);Bolsista Pós-Doutorado FAPERJ
Resumo: Este artigo tem como foco a dimensão da política urbana em São Vicente, caracterizando a organização do espaço urbano,com vistas a imprimir, através da memória, práticas específicas de civilidade às camadas populares na década de 80. Além disso, aponta para a questão da migração interna e seus impactos na organização da cidade do Mindelo, ressaltando os desafios provenientes da segmentação social e econômica.
Palavras-Chave: Cabo Verde. Migração. Urbanização. Mindelo. Cultura.
Ilustração:
1.Visão que se tem hoje do Mindelo, a cidade de São
Vicente, olhando do alto do Fortim, para a baia do Porto Grande, porto natural formado pela cratera submarina de um vulcão com cerca 4 km de diâmetro. Fonte: Arquivo
do Dr. Artur Monteiro Bento
2. Junto a Baía das Gatas foi construída área de lazer
como o trampolim, ponto de apoio para salto mortal em direção ao mar (piscina natural). Pode ser observada uma espécie de linha que divide o mar alto e a piscina, que aparece no fundo da figura.
3. A tele objetiva revela que as montanhas vão sendo
preenchidas. Hoje mais do que nunca, formadoras de áreas suburbanas.
4.O espelho da cidade se estende da Praça Nova com suas caixas
bancárias, bares, hotéis, boutiques, galerias, correios, área de lazer até os subúrbios.Além de local de formação de hábitos pré-escolar, realçando a convivência social e o respeito à natureza.
5. Uma estrutura de respeito, em que as vendedoras
aguardam o cliente harmoniosamente. Anos anteriores, uma vendedora poderia atrapalhar a venda de outra, oferecendo o peixe por um preço inferior, o que suscitava intensos conflitos sociais.
6. Reformas foram feitas no Pelourinho de Verdura. Na parte de cima passou a funcionar uma série de salões de beleza,cabeleireiro, bares e restaurantes.
7. As ruas foram projetadas de forma a passar a imagem de uma cidade modelo, projeto seguido pelas áreas suburbanas e rurais, transformando a ilha uma mega-cidade, cuja infra-estrutura de habitação, saneamento
e transporte vêm acompanhando a vida de todos os segmentos da sociedade do Mindelo.
8.Praça Nova. Fonte: Mindel Hotel
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Comentários
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Parabéns Doutor,
Esta eu não conhecia muito bem. Os autores caboverdianos tem focalizado pontos que lhes interessa, às vezes, buscando se qualificar de quem é o mais maqueador da cultura caboverdiana, mas ficam somente no campo da especulação, presso sem dizer nada. É só ver os textos que alguns donos, ou seja, supostos donos de Cabo Verde em tudo, escrevem.
Você traz conhecimentos profundos para nós caboverdianos que nascemos na década de 90 e, que já haviamos sido informado, e, para os filhos de caboverdianos no exterior conhecer suas origens. Que texto!
Doutor, quem é a responsável pela pobreza caboverdiana hoje, se tivermos em conta que o PAICV garantiu a miséria e os bairros-achadas até a década de 90 em vários pontos de Cabo Verde. Praia até hoje vemos gente urinando e defecando em público sem a mínima preocupação com a intimidade.
Caro Fábio,
Não é ora de se responsabilizar nenhum ator social pela miséria caboverdiana.
Ora, Cabo Verde tem início no período colinial, a partir de 1460, e, principalmente, em 1462, com a entrada de moradores europeus, e, posteriormente, em 1466, com a entrada de africanos provenientes da diversos tribos para fins de povoamento e desenvolvimento econômico das ilhas.
É claro que Lisboa investiu muito pouco nas ilhas, mas também, não podemos esquecer que Portugal sofreu as mesmas consequências de pobreza, a ponto de milhares de portugueses terem abandonado suas zonas de origens para procurar a vida em várias partes do mundo, assim como os caboverdianos. Portugal estava preocupado com a manutenção do Império, segundo o pensamento da época.
Com a independência nacional, a pobreza se prolongou, e, durante as décadas de 70 e 80, passamos por situações de fome. Por exemplo, em São Vicente, era comum caboverdiano comer milho podre, passar necessidade de acúcar, feijão, falta de água potável e a imensidão de bairros/achadas.
É claro que os intelectuais tem procurado defender valores grupais que se confudem com valores coletivos. Mas, atualmente, parece que o Partido Africano, no quadro da democracia, vem buscando amenizar o sofrimento do nosso povo, principalmente, dos mais pobres. A política é outra, e,as velhas ideologias que comandaram o mundo no século XX caíram por terra.
Não é ora para buscar bode expiatório, mas é arregaçar as mangas para trabalhar e formar uma nova elite caboverdiana para repensar o Cabo Verde, cada um, oferendo sua contribuição.
Em fim, todos somos intérpretes de um passado que nós não vivemos, e, é assim, que devemos nos encarar.
Espero ter respondido seu questionamento.
Cada vez mais fico surpreendida pelos textos desse Doutor.
Uma dúvida perpassa pela minha mente: é sua intenção criar uma nova geração de intelectuais caboverdianos, que venham a se diferenciar dos intelectuais já conhecidos, já que você num dos seus textos fala da da 3a geração?
Abraço
Fá
Prezado Professor!
Concordo consigo quando disse que “Portugal investiu muito pouco nas ilhas”. Se analisarmos a situação das fomes que desimaram milhares de vidas em Cabo Verde na época colonial, podemos concluir que as políticas administrativas levadas a cabo pela metrópole não conseguiram impulsionar o desenvolvimento económico das ilhas. É de se destacar o papel importante da elita intelectual da época como é o caso de Juvinel Cabral que escreveu vários ofícios à metrópole solicitando algumas intervenções para minimizar os efeitos da fome embora sem conseguir grandes resultados.
Apreciei bastante quando o professor disse que não é hora para buscar bode espiatório. Infelizmente nós os caboverdianos, muitas vezes, deixamos de focar no essencial, talvez por ser o caminho mais exigente, e desviamos para coisas supérfluas que não trazem nenhum avanço para a nossa sociedade. Precisamos ganhar a maturidade de pensamento guiar as nossas acções e intervenções no sentido de dar o nosso contributo para a consolidação da nossa jovem democracia tendo sempre em consideração que é tarefa de todos nós, contribuir para o desenvolvimento do nosso país.
Maria Semedo
Aluna de Ciencias Sociais
1º Ano
UNICV
Maria Semedo.
Grato pelo seu comentário, que além de lógico e coerente com o pensamento social, você aponta dados contextuais.
Continua assim.
Prof. Dr. Artur Monteiro Bento