Sobre a violência urbana na Praia

Nestas coisas da tentativa de explicação do fenómeno da violência juvenil na cidade da Praia, devemos começar a inverter a análise. Ao invés da categoria jovens em conflito com a lei, penso já ser a hora de perguntarmos o porquê de não considerar que as leis é que podem estar em conflito com os jovens. Reparo uma tentativa de explicações patológicas e lambrozianas sem qualquer nexo. A abertura de uma trincheira onde de um lado coloca-se o bem e do outro o mal: a vítima versus o agressor. Pergunto se o agressor também não pode ele próprio ser uma vítima? É que a violência tem várias dimensões e em Cabo Verde ela é estrutural e simbólica. Não digo que somos todos uns violentos, mas que existe uma cultura de violência em Cabo Verde… deixemos de ser uns avestruzes. 
O que mais se discute hoje é a violência juvenil e a análise está impregnada de preconceitos. O problema em Cabo Verde não é a violência juvenil mas sim a violência tout court. Anda-se a criminalizar e a exotizar a juventude e a pobreza. E para isso temos uma nova figura – os jesuítas sociais. Educar é a palavra de ordem. Eu pessoalmente aprendi muita coisa com os thugs (e não foi atirar, que isto aprendi nas tropas aerotransportadas). Só que os novos jesuítas têm a mentalidade fechada. Só eles sabem. É o síndrome dos seres superiores reproduzidos historicamente. Os civilizados a ensinarem os selvagens. Civilizados versus badios, badio de praia versus badio de fora, riba-praia versus baxu-praia… e a violência simbólica continua, juntamente com a pior de todas elas: a desigualdade social.

 

E a outra palavra de ordem é formação. O problema é que se forma em áreas já estagnadas e é tipo ou vai ou se vira. Mais uma vez falta de conhecimento do fenómeno. Porque é que não se abre formação por exemplo na área da produção de som e demais coisas do tipo? Prefiro parar aqui com o exemplo para não abrir o apetite ao pessoal do Bô Ki Ta Disidi (o tal programa copiado ou comprado a Portugal – não custa nada começarmos a pensar as juventudes a partir das suas características e contextos como forma de fintar as novas dinâmicas colonizadoras). Existe claramente uma desadequação formação/emprego.

Voltando à questão da violência juvenil e das gangues de rua, a verdade é que quando o Estado falha os jovens tendem a afiliar-se nos grupos de pares. Castel chama a isso processo de desafiliação. E porque não considerar as gangues como o reequilíbrio estrutural numa sociedade socialmente desequilibrada? Isto explica por exemplo a relação de ambiguidade das populações da comunidade em relação a eles. Por um lado encontram-se amedrontados com os tiros que hoje fez mais um ferido colateral no bairro do Brasil e, por outro, vêem neles os agentes que substituem o Estado. Ou seja, chegam onde o Estado não chega, a não ser em tempo de campanha ou através da tropa de elite versão crioula. Por isso possuem o tal capital social negativo de que fala Portes… e depois admira-se que a comunidade os protege às vezes. A outra verdade é que ela proporciona trabalho e identidade a centenas de jovens. De certa forma os integra. Uma integração perversa, é verdade. Contudo, não esquecer que o nosso desenvolvimento é ele também perverso.
Um outro erro recorrente é considerar o fenómeno das gangues ou das brigas entre bairros e grupos uma novidade. Ganhou foi uma outra dimensão. Antes da independência havia o pessoal do bulimundo… pois, o nome bulimundo não aparece com Catchás. E nem quero ir mais atrás. Aliás, o próprio Carlos Veiga, em 1978, numa entrevista no jornal Voz di Povo, ainda membro do PAIGC e homem da justiça, disse numa entrevista, que preocupado estava com os níveis da delinquência juvenil na ilha do Monte Cara. No Pós-independência, a delinquência juvenil grupal continuava. Piratas (anos 80), netinhos de vovó (finais de 1980 e início de 1990), ninjas do mar (metade de 1990), piratinhas – mininus di pé di rotcha e mininus di prédiu (finais de 1990) são alguns exemplos. Deportados (pertencentes às gangues de rua de Massachusetts tais como Bloods, Green Street, CVP ou CVO) chegam em massa em 1998/9. Encontram na Praia dois grupos de narcotraficantes rivais e integram-nos como matadores. Tinham também no cidadão comum possíveis clientes. Encontram também jovens no bairro com estruturas de gangues, embora não tão bem estruturadas. 2003/4 nascem os thugs versão Zé Pequeno e 50 Cent. Antes já havia a versão D12 e malhação. E nem falo das rivalidades dos grupos de convívio, desporto ou tabanka… e os tais meninos de gente de bem que brincavam a gangues a pontapés, pedradas e garrafadas… e a tiros também. Deixo a infuência Shaolin para outro dia… 
Contente fiquei em ver um thug de um dos bairros periféricos da capital enfrentar a plateia universitária na ENG/Uni-CV e a falar abertamente sobre a relação político/thug em tempo de campanha… a ovação foi estonteante… e umas horas antes tinha chegado de Assomada – da US – com dois que levei para interagir com alunos meus do Serviço Social e Políticas Públicas. Afinal de contas, são estes os futuros técnicos sociais. Espantados ficaram com a inteligência dos jovens marginais/marginalizados… e são eles os terroristas sociais… deixem mas é de achar (apesar da liberdade de cada um opinar) e que eu saiba ainda não existe pós-doutoramento em tudologia.

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